segunda-feira, 9 de maio de 2011

Resenha do leitor - Mar Morto por Lorena Morais


Vida e amor no mar


“Agora eu quero contar as histórias da beira do cais da Bahia”. Assim Jorge Amado inicia seu romance de 1936 - mesma época em que o autor foi preso pela primeira vez no Rio de Janeiro, por conta de suas atividades políticas.


Mar Morto foi escrito inicialmente na cidade de Salvador, em frente ao mar, porém foi concluído na cidade do Rio de Janeiro, no mês de junho. No mesmo ano - com sua primeira publicação – o romance recebeu o Prêmio Graça Aranha.


A narrativa relata uma história que se desenvolve na cidade de Salvador, na Bahia, tendo como cenário a região do cais, situada na cidade baixa. Evidentemente seus habitantes eram pescadores e saveiristas, que mantinham sempre um encontro amistoso com a população da cidade alta – comerciantes, médicos, professores. 


É interessante perceber que o romance é dividido por dois mundos, o ambiente marítimo - tendo como aspecto principal o mito de Iemanjá, símbolo do candomblé - e o terrestre – a história de vida e as dificuldades enfrentadas pelo povo do cais. Nesses dois mundos, encontramos duas pessoas pertencentes a eles: Guma, saveirista, um homem do mar e Lívia, uma mulher da terra. Ambos vivem uma história de amor, que o autor afirma ser “a história da vida e do amor no mar”.


No espaço sagrado do mar e no espaço profano da terra é desenvolvida a narrativa. Guma foi criado pelo tio e abandonado pela mãe ainda criança. Seu destino, como o dos outros meninos do mar, é o saveiro, levando e trazendo cargas pelas águas da Baía de Todos os Santos. Em aventuras com várias mulheres encontra Lívia, que ele acredita ter sido enviada por Iemanjá. 


Ambos se envolvem, vivendo uma história mítica e real de amor. Diante desses dois personagens, vários outros se envolvem com a narrativa, relatando a vivência e as dificuldades na beira do cais. Temos o “preto Rufino e sua volúvel mulata Esmeralda; velho Francisco, tio de Guma, que conserta redes desde que se tornou incapaz de enfrentar o mar; da valente e desbocada Rosa Palmeirão, de punhal no peito e navalha na saia”. Histórias que apontam para a possibilidade da instauração de uma nova ordem econômica e social.


O livro possui uma leitura compreensível, repleta de diálogos e de símbolos da “baianidade”, além de ilustrações belíssimas de Osvaldo Goeldi. Com capítulos bem desenvolvidos, a narrativa nos faz penetrar em um ambiente mítico e lendário, inspirados nos relatos de pessoas repletas de crenças.

Mar Morto já foi traduzido para treze línguas e adaptado para o rádio, teatro, história em quadrinhos, além de inspirar músicas sobre o tema por Dorival Caymmi.
Uma ótima leitura para quem quer conhecer mitos e aventuras do povo baiano e viajar na literatura (ousada) amadiana. Eu recomendo!


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